O Brasil concorre com a Europa com uma mochila de chumbo
Depois de décadas de negociação, o acordo entre Mercosul e União Europeia finalmente saiu do papel e reposiciona o Brasil no mapa do comércio internacional. É um movimento histórico: cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com impacto direto sobre tarifas, exportações, importações e competitividade.
Mas, apesar do entusiasmo, é preciso colocar os pés no chão. O acordo não muda o país da noite para o dia — ele muda o jogo ao longo do tempo. E isso traz ganhos, riscos e, principalmente, um desafio que o Brasil conhece bem: competir em igualdade.
A notícia: o que significa esse acordo?
Na prática, o pacto prevê a eliminação ou redução gradual de tarifas entre os blocos. Mas esse processo é lento e escalonado: os prazos podem variar de 4 a 15 anos, dependendo do produto.
É importante entender o que isso revela: trata-se de uma transição comercial longa, pensada para reequilibrar interesses e dar tempo de adaptação. Só que, mesmo gradual, a abertura do mercado gera um efeito inevitável: mais concorrência.
O que pode melhorar para o consumidor brasileiro
Quando se fala em acordo com a União Europeia, o imaginário do brasileiro costuma ser rápido: vinhos, queijos, azeites e carros “mais baratos”.
Existe fundamento. Ao longo dos anos, com a redução tarifária, produtos europeus devem ganhar espaço e se tornar mais competitivos no Brasil, principalmente itens como:
- chocolates, azeites, queijos e vinhos
- derivados e alimentos processados
- leite em pó e fórmulas infantis
- automóveis, máquinas e equipamentos
Só que há um detalhe decisivo: redução de tarifa não garante redução imediata de preço.
O valor final para o consumidor depende de fatores que, muitas vezes, pesam mais do que a tarifa:
- câmbio (real x euro)
- logística internacional e interna
- custos portuários, seguros e fretes
- impostos internos
- margem do varejo e distribuidores
Ou seja: pode ficar mais barato, mas não é automático — e não será no curto prazo.
O lado difícil: a indústria brasileira está preparada?
Aqui entra o ponto mais sensível do acordo.
A Europa não concorre apenas com tarifa menor. Ela concorre com:
- tecnologia
- produtividade
- escala
- padronização
- qualidade percebida e marca
E o Brasil, muitas vezes, concorre com um problema estrutural conhecido: o Brasil concorre com a Europa com uma mochila de chumbo.
Essa “mochila” é o chamado Custo Brasil: burocracia, insegurança jurídica, logística cara, crédito difícil, infraestrutura limitada e um sistema tributário complexo que consome tempo e margem.
Por isso, para muitos setores industriais — especialmente automotivo, vestuário e parte dos bens de consumo — o acordo pode representar um teste duro de competitividade.
O risco não é colapso imediato. É algo mais perigoso: perda gradual de mercado, com retração industrial silenciosa e impacto em emprego e cadeias produtivas.
Por outro lado, existe uma janela positiva: o acordo tende a facilitar o acesso a máquinas e equipamentos europeus, o que pode reduzir custos de modernização e melhorar produtividade. Mas isso exige planejamento, capital e gestão. Sem estratégia, abertura comercial vira pressão — não evolução.
O paradoxo: a Reforma Tributária pode aliviar… ou pesar mais
E aqui está o ponto mais brasileiro de todos.
O acordo amplia a concorrência externa justamente quando o país atravessa sua maior mudança fiscal: a Reforma Tributária e a transição para CBS e IBS.
Em teoria, a reforma pode retirar parte da mochila de chumbo ao simplificar o sistema e reduzir distorções. Mas, ao mesmo tempo, a fase de transição pode gerar:
- incerteza
- aumento de custo operacional
- reprecificação
- risco de erro e contingência
É o paradoxo: enquanto o Brasil se abre para competir com o mundo, ele também reorganiza o próprio chão tributário. Quem entender cedo essa transformação pode ganhar competitividade. Quem ignorar, pode perder margem antes mesmo de perceber.
No fundo, o acordo não é apenas sobre comércio. É sobre eficiência.
E o Brasil só terá vantagem real quando aprender a competir sem carregar peso demais.
Como as empresas podem se proteger e ganhar previsibilidade
Para empresas brasileiras, especialmente as que atuam com logística, transporte, indústria e comércio, a combinação “acordo internacional + reforma tributária” cria um novo cenário: mais concorrência, menos espaço para erro e maior necessidade de governança.
Em outras palavras: a empresa que tiver método para ler mudanças, revisar impactos e antecipar riscos tende a atravessar esse ciclo com mais segurança.
A SS Advocacia Empresarial e Tributária atua justamente nesse ponto: ajudar empresas a transformarem o ambiente tributário em planejamento, previsibilidade e decisão estratégica, com acompanhamento contínuo do que realmente importa no risco fiscal.
Se a sua empresa está inserida em cadeias que podem ser afetadas pela abertura comercial e pela transição do IBS/CBS, vale acompanhar esse tema de perto — e não apenas quando o impacto já se materializou.
Adv. Saul Sastre – OAB/RS 138.752
