O Brasil chegou a 2026 com um dado que, à primeira vista, parece positivo: a arrecadação tributária federal atingiu o maior nível da história.
Mas, ao mesmo tempo, o país também convive com um número recorde de empresas endividadas.
Essa contradição não é aparente.
Ela revela, na verdade, uma transformação profunda no sistema tributário brasileiro — e nos desafios enfrentados pelas empresas.
UMA SEQUÊNCIA DE RECORDES
Nos últimos três anos, a arrecadação federal seguiu uma trajetória consistente de crescimento, refletindo o aumento da eficiência fiscal e a manutenção de uma carga tributária elevada no país.
- 2023 marcou o início de um novo ciclo de expansão, com carga tributária total (União, Estados e Municípios) próxima de 30% do PIB;
- 2024 consolidou essa tendência, com arrecadação federal superior a R$ 2,6 trilhões e carga tributária total acima de 32% do PIB, o maior patamar em mais de duas décadas;
- 2025 estabeleceu novo recorde histórico de arrecadação federal, próxima de R$ 2,9 trilhões, mantendo a carga tributária total em níveis elevados, na faixa de 32% a 33% do PIB.
E 2026 já começa na mesma direção, com resultados mensais elevados e sinais claros de continuidade desse crescimento, indicando que a pressão arrecadatória permanece como elemento estrutural da economia brasileira.
O OUTRO LADO DA EQUAÇÃO
Enquanto o Estado arrecada mais, as empresas enfrentam um cenário cada vez mais pressionado.
O país registra milhões de empresas inadimplentes e um volume expressivo de dívidas em atraso, com forte presença do passivo tributário nessa composição.
Esse movimento cria um paradoxo:
o sistema arrecada mais — mas também produz mais devedores.
O QUE EXPLICA ESSE CENÁRIO
A resposta não está em um único fator.
Trata-se de uma combinação de elementos que se intensificaram nos últimos anos:
1. Aumento da eficiência fiscal
A Receita Federal e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional operam hoje com alto nível de tecnologia, cruzamento de dados e monitoramento contínuo.
A capacidade de identificar inconsistências e cobrar tributos aumentou significativamente.
2. Elevação da carga tributária efetiva
Mesmo sem mudanças estruturais profundas no sistema até recentemente, o peso dos tributos sobre a economia cresceu.
Isso impacta diretamente a margem das empresas.
3. Redução da capacidade de pagamento
Com custos elevados, crédito mais caro e margens comprimidas, muitas empresas passaram a ter dificuldade real de manter a regularidade fiscal.
4. Complexidade do sistema
O sistema tributário brasileiro continua sendo um dos mais complexos do mundo, o que aumenta o risco de erros, autuações e acúmulo de passivos.
A MUDANÇA DE POSTURA DO ESTADO
Diante desse cenário, o próprio Estado passou a ajustar sua estratégia.
A lógica exclusivamente baseada em cobrança deu lugar a um modelo mais amplo, que combina:
- fiscalização intensiva;
- programas de negociação (transação tributária);
- incentivos à autorregularização;
- segmentação de contribuintes.
Essa mudança é, ao mesmo tempo, uma resposta ao problema e um reconhecimento dele.
O IMPACTO PARA AS EMPRESAS
O ambiente atual exige uma mudança clara de postura empresarial.
Não basta mais cumprir obrigações de forma reativa.
Hoje, a gestão tributária envolve:
- planejamento;
- monitoramento contínuo;
- organização do passivo fiscal;
- estratégia de regularização.
Empresas que ignoram essa realidade tendem a acumular riscos.
Empresas que enfrentam o problema de forma estruturada conseguem recuperar previsibilidade e espaço para crescer.
CONCLUSÃO: O PROBLEMA NÃO É ARRECADAR — É SUSTENTAR
O Brasil não enfrenta uma crise de arrecadação.
Os números mostram exatamente o contrário.
O desafio está na outra ponta: a capacidade das empresas de sustentar o nível atual de exigência tributária.
Nos últimos três anos, o país consolidou um cenário em que arrecadação recorde e endividamento empresarial caminham lado a lado.
E isso muda a forma como o tema tributário deve ser tratado.
Ele deixa de ser uma questão operacional.
E passa a ser uma questão estratégica.
Conteúdo informativo e educativo. Não constitui aconselhamento jurídico individualizado.
Saul Sastre OAB/RS 138.752
