2027: o ano em que o Brasil terá de escolher entre administrar a crise ou reconstruir o ambiente empresarial

O Brasil que chegará a janeiro de 2027 provavelmente será muito diferente daquele que iniciou o atual ciclo político quatro anos antes.

Um novo mandato presidencial começará em meio à implementação da maior transformação do sistema tributário brasileiro em décadas, com empresas ainda pressionadas pelo custo do crédito, elevado endividamento, dificuldades de caixa e um ambiente fiscal que continuará exigindo atenção.

Não se trata de prever uma crise.

Trata-se de reconhecer que o próximo governo receberá um país diante de escolhas econômicas importantes.

E talvez a principal delas seja relativamente simples de formular: o Brasil continuará administrando os sintomas de suas dificuldades ou começará a atacar suas causas?

O empresário chegará a 2027 cansado

Nos últimos anos, as empresas brasileiras enfrentaram uma combinação particularmente difícil.

Crédito caro, elevada carga tributária, insegurança jurídica, aumento de custos, redução de margens e baixo espaço para erros financeiros passaram a fazer parte da realidade de milhares de negócios.

Os números recentes de recuperações judiciais no varejo são apenas uma das manifestações desse ambiente.

Mas a recuperação judicial é o final da história.

Muito antes dela aparecem os primeiros sinais: redução do capital de giro, atraso de tributos, renegociação de fornecedores, utilização crescente de crédito bancário, parcelamentos sucessivos e deterioração da capacidade de investimento.

É esse empresário que o próximo governo encontrará em 2027.

O problema brasileiro não será resolvido apenas aumentando a arrecadação

Existe uma equação econômica elementar que muitas vezes é esquecida.

Uma empresa saudável gera empregos, compra de fornecedores, investe, paga salários e recolhe tributos.

Uma empresa financeiramente inviável deixa de fazer praticamente tudo isso.

Por essa razão, a política fiscal brasileira não pode considerar apenas quanto o Estado consegue arrecadar no curto prazo.

É necessário discutir também quanto a economia consegue produzir, investir e suportar.

O desafio do próximo governo será conciliar responsabilidade fiscal com preservação da atividade econômica.

Sem equilíbrio das contas públicas, dificilmente haverá redução estrutural do risco e dos juros.

Mas sem empresas economicamente saudáveis também não haverá crescimento sustentável da arrecadação.

O círculo que o Brasil precisa romper

Existe um círculo perigoso na economia.

Desequilíbrio fiscal aumenta a percepção de risco.

Maior risco contribui para juros elevados.

Juros elevados encarecem crédito e investimentos.

Crédito caro deteriora o caixa das empresas.

Empresas fragilizadas investem menos, contratam menos e apresentam maior risco de inadimplência.

Quando esse movimento se prolonga, surgem renegociações, passivos tributários, execuções e, nos casos mais graves, recuperações judiciais e falências.

Romper esse círculo deveria estar entre as prioridades econômicas de qualquer governo que assuma em 2027.

2027 também será o ano da Reforma Tributária

Há ainda uma transformação adicional acontecendo simultaneamente.

A Reforma Tributária do consumo entrará em uma etapa decisiva de implementação.

CBS e IBS modificarão progressivamente a lógica tributária brasileira e produzirão consequências muito além do departamento fiscal das empresas.

Contratos precisarão ser revistos.

Preços terão de ser recalculados.

Cadeias de fornecedores poderão ser reorganizadas.

Créditos tributários ganharão importância ainda maior.

Fluxos financeiros serão afetados.

Modelos de negócio que funcionavam adequadamente no sistema anterior poderão perder eficiência no novo ambiente.

Por isso, tratar a Reforma Tributária simplesmente como substituição de tributos seria um erro.

Ela representa uma transformação econômica da operação empresarial.

O próximo governo precisará olhar para quem produz

Uma agenda econômica para 2027 deveria partir de alguns princípios objetivos.

Responsabilidade fiscal capaz de criar condições para juros estruturalmente menores.

Segurança jurídica.

Simplificação efetiva das obrigações tributárias.

Estímulo ao investimento privado.

Melhoria do ambiente regulatório.

Crédito produtivo.

E mecanismos que permitam identificar empresas economicamente viáveis antes que dificuldades temporárias se transformem em insolvência.

Nesse último aspecto, o Brasil precisa evoluir.

Durante muito tempo, o Estado esperou a dívida tributária surgir para depois cobrá-la.

A cobrança evolui para inscrição.

A inscrição pode evoluir para execução.

A execução pode atingir patrimônio e fluxo financeiro.

Somente quando a situação empresarial já está deteriorada aparecem alternativas mais amplas de negociação.

Essa lógica precisa ser repensada.

É preciso criar uma cultura de prevenção da crise empresarial

Uma empresa que possui atividade econômica viável, clientes, empregados e capacidade produtiva não deveria precisar chegar à insolvência para encontrar mecanismos eficientes de reorganização.

O Estado deveria estimular soluções anteriores.

Diagnóstico financeiro.

Negociação preventiva do passivo tributário.

Transação.

Reorganização de garantias.

Parcelamentos compatíveis com capacidade de pagamento.

Reestruturação financeira.

Acompanhamento antecipado das empresas em dificuldade.

Preservar uma empresa economicamente viável não significa perdoar dívidas.

Significa reconhecer que receber ao longo do tempo de uma empresa funcionando pode ser economicamente mais racional do que tentar cobrar imediatamente de uma empresa que deixará de existir.

A advocacia tributária também entrará em uma nova era

2027 poderá representar uma mudança importante também para profissionais que assessoram empresas.

Durante décadas, grande parte da advocacia tributária brasileira desenvolveu-se em torno do contencioso e da recuperação de tributos pagos indevidamente.

Essas atividades continuarão existindo.

Mas a Reforma Tributária tende a ampliar outro mercado: o da eficiência tributária permanente.

A pergunta empresarial gradualmente deixará de ser apenas:

“Existe algum tributo que eu paguei e posso recuperar?”

E passará também a ser:

“Minha empresa está pagando corretamente, aproveitando todos os créditos disponíveis e estruturada da maneira mais eficiente possível?”

Essa mudança é profunda.

Transforma a assessoria tributária de uma intervenção eventual em acompanhamento estratégico da atividade empresarial.

2027 exigirá planejamento, não improvisação

O próximo governo terá pouco espaço para erros.

Precisará administrar simultaneamente contas públicas, dívida, juros, crescimento econômico e uma transformação tributária sem precedentes.

As empresas enfrentarão desafio semelhante.

Quem esperar a dificuldade aparecer para então procurar uma solução provavelmente estará reagindo tarde.

O planejamento empresarial de 2027 começa antes de 2027.

Empresas precisam conhecer seus passivos, revisar estruturas tributárias, avaliar contratos, projetar impactos da Reforma Tributária e compreender como o novo sistema afetará margens e fluxo financeiro.

O Brasil precisa voltar a tornar economicamente interessante produzir

Talvez esse seja o verdadeiro desafio do próximo ciclo presidencial.

Nenhuma economia cresce de maneira sustentável apenas aumentando arrecadação, expandindo crédito público ou criando programas emergenciais.

O crescimento permanente depende de empresas dispostas a investir.

E empresários investem quando conseguem enxergar retorno, estabilidade e previsibilidade.

O Brasil de 2027 precisará recuperar justamente essa confiança.

Independentemente de quem ocupar o Palácio do Planalto, a pergunta fundamental será a mesma:

O Estado continuará esperando empresas entrarem em dificuldade para negociar sua sobrevivência ou criará um ambiente no qual elas consigam permanecer saudáveis, investir e crescer?

A resposta ajudará a determinar não apenas o desempenho da economia em 2027.

Poderá definir boa parte da trajetória empresarial brasileira na próxima década.

SS Advocacia
Direito Tributário e Empresarial para um novo ambiente econômico.

Prof. Saul Sastre

Advogado Especialista em Direito Tributário

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